segunda-feira, 30 de março de 2015

Cap.º IV - O "Sete Línguas tirou a carta"

Vendiam de tudo, menos "permis de conduire"
- Os ditos, mexericos e carta na mão -
O Sete Línguas, encontrava-se num grande dilema. Ele sabia que em Marrocos se vende de tudo: calças de ganga de boas marcas, a bons preços, casacos de cabedal genuíno ao preço da uva mijona, carros em todas as mãos... mas disso já o Silveira estava servido, do que ele estava a gora mesmo a precisasr era da carta de condução. Com ou sem razão, acabou de se incompatibilizar com o Santos, tal como acontecera com o Agostinho, o de Vale da Pinta, também não tinha entrado nas boas graças do Silveira. Tanto assim foi, que o capataz do ferro, esteve umas semanas de castigo, sem pôr o traseiro no assento do Opel Rekord 1900. Diziam as más-línguas, que assim e que assado, que as mulheres isto e que as mulheres aquilo, mas ali naquele meio de 99,8% de homens ou afins, nem todos procediam como total hombridade. Fosse por despeito, inveja ou malvadez, alguém soprou nas orelhas do Sete Línguas, alegando que aqueles a quem ele punha o carro nas mãos, não tardariam a espatifá-lo todo. E que, tanto o Agostinho como o Santos, não tinham unhas para tal volante, por isso, na opinião dos bufos, o melhor que o Silveira tinha a fazer era ser ele próprio a conduzir a viatura, porque, do mal, o menos. Para espicaçar ainda mais o pobre, ainda lhe aventaram com a hipótese de ter sido o próprio Santos a sabotar a iluminação do carro.
            O nabo do homem alinhou naquela tramóia e, no dia seguinte, disse, friamente, ao Santos que a partir daquela data, seria ele, Silveira, a conduzir a bomba.
Foi então que o Santos, furioso pela despromoção, lhe rogou meia dúzia de pragas que, caso caíssem em cima do homem, já há mais de trinta e cinco anos que o Sete Línguas tinha ido conduzir bombas para o Inferno.
Como disse, agora na vertente dono-condutor, foi o dono a trazer o carro desde Al Aioun até ao estaleiro da obra. Como ele gostava de desabafar comigo, veio ao escritório e resumiu a odisseia de sábado. Ora como eu não ria das façanhas que ele contava – pese embora o esforço que fazia - ele ia sempre mais além. Mas hoje, o Silveira, não estava muito feliz ,e não seria somente pelo facto da saga de sábado. E, a uma pergunta minha, respondeu:
— Sabe, sr. Caria Luís, eu estou um bocado pesaroso por causa do diabo do carro. Mesmo agora, que venho apenas de El Aioun, e não são mais de doze quilómetros, fiquei aflito com o aquecimento do motor.
Eu, como gostava de entrar com ele sem o mostrar, comentei:
— Ó Silveira, como a estrada é boa, só retas, já estou a ver que você veio por aí fora, na esgalha, a apertar com o carro! – ao que o Silveira respondeu:
— Na esgalha, eu? Ó sr. Caria, então eu vim sempre em segunda!...
E não foi fácil explicar ao Sete Línguas que, em termos de provocar aquecimento no motor, a segunda velocidade era mais forte do que uma quarta. Aqui, a ordem numérica era invertida.
Passadas duas semanas, já o Silveira tinha a “permis de conduire” na mão. Para o que desse e viesse.
Foi na companhia de mais três portugueses que o Silveira fez o exame[1] que o havia de habilitar a conduzir veículos automóveis. Na verdade, nem o nosso amigo, nem muitos outros patrícios fizeram qualquer exame, pelo menos o teórico, já que o prático era comprado na hora. O assistente social e diretor do refeitório do estaleiro, Andrade e Silva, tinha a espinhosa missão de levar os candidatos às provas, subornar os agentes, fazer as perguntas e, de modo dissimulado, responder pelos examinandos durante as provas. Parece que as estatísticas marroquinas subiram em flecha, depois destes "cérebros tugas" terem sido postos à prova. Como, de um modo geral, ninguém pescava nada de francês, era o sr. Andrade e Silva que, atuando como tradutor, perguntava em português e respondia em francês. As respostas estavam sempre certas. Tenho a certeza, que nunca antes ou depois da Cimenterie de Oujda, houve candidatos tão brilhantes no Ministério dos Transportes de Marrocos no distrito de Oujda.
Mesmo os fulanos que não tinham a quarta classe, ou eram de todo iletrados, passaram nas provas com distinção. Pudera!...




[1] O exame era uma farsa

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