quinta-feira, 26 de março de 2015

Cap.º I - Mão-de-Obra de seleção


 - Os excêntricos -

  Eles eram tantos, que nem sei por onde começar. Porém, nem todos aqueles que contribuíram para a lista dos motes, que serviram de base a certas cenas, foram dignos de figurar no top. Dentro de uma certa lógica, e por uma questão de espaço e racionalidade, só os casos mais emblemáticos serão referidos.
Devido ao facto de o nosso amigo Sete Línguas ter sido referenciado como o Pontífice dos excêntricos, será ele a abrir o desfile.

Cap.º I - O Sete-Línguas
Fazer obras em Oujda com marroquinos, era como fazer omeletes sem ovos em qualquer ponto do planeta.
Estes fulanos, além de guardar carneiros, rezar cinco vezes ao dia - virados a Meca - beber chá de menta e partir um vidro de um carro para roubar uma esferográfica Bic ou um maço Malboro, que, por descuido, tinha sido deixado à vista, nada mais sabiam fazer.
Então, se para grandes males, grandes remédios, foram as Construções Técnicas obrigadas a abrir mais inscrições na Sede e, também, através de anúncios na imprensa escrita. Se a obra era mesmo para fazer, com que gente é que nós contávamos para dar andamento ao processo, cumprindo os prazos contratuais? Tinha de ser com portugueses. Não possuo esses dados concretos, mas presumo que o rácio do 1:5 inicialmente previsto, era agora bem capaz de ter atingido o 3:5, se incluirmos a mão-de-obra não qualificada como são os serventes. No caso de limitarmos o rácio apenas aos artífices, ele não deve andar muito distante do 5:5 ou seja: para cada português, um marroquino. Ainda com outro senão: no mês do Ramadão, aquela gente não fazia nada. Eles, das 06h00 até às 19h00 não se alimentavam, só rezavam. Neste mês de penitência islâmica, o horário da obra era das 06h00 às 14h00, mas, mesmo assim, ainda era demasiado, porque não seria fácil trabalhar debaixo de um calor tórrido sem comer nem beber. Não quero com isto dizer, que estes muçulmanos, durante o período do Ramadão, tivessem passado do oitenta ao oito, porque, em termos de alimentação, quando muito, passaram do dezasseis para o oito. Se nos outros meses eles comiam uma fatia de chapata dura, acompanhada de um púcaro de chá de menta ou, em alternativa, meio pacote de leite, por vezes, azedo, não se pode dizer que o sacrifício tenha sido demasiado duro. Imaginemos um operário português habituado a encher o bandulho com uma valente pratada de batatas com bacalhau, meio pão caseiro e meia litrada de tintol (só?) a ter de jejuar desde a madrugada até ao pôr-do-sol. Era mais que certo que, ao segundo dia, já estava de baixa médica. Era tudo uma questão de hábito.
Mas era verdade que os fulanos, durante aquele período, não podiam nem com uma gata pelo rabo. Não quero com isto dizer, que nos restantes onze meses eles fossem de muita produtividade, mas sempre faziam mais alguma coisinha. No entanto, para tirar partido de alguma energia que qualquer deles ainda conservasse, melhor não havia do que dar-lhes uma empreitada. Pelo sistema de la tâche, eles pareciam ir rebuscar forças não sei aonde, mas sempre buliam alguma coisa. Muitos desses marroquinos, mesmo mal alimentados, eram bem melhores do que certas encomendas Tugas que por lá apareceram, enviados pela Sede. É verdade. De entre aquela gentalha portuga, anónima e golpista, que foi somente passear a Marrocos, comer e beber, à borla, sobressaiu um cromo que acabou por fazer história na obra e fora dela. Bem, mas este já vinha rotulado da Sede com o epíteto de Tradutor. Não sei bem quem terá sido o, também cromo, que o entrevistou, em que idioma o terá feito ou que prenda ofereceu o candidato ao entrevistador mas, pelo que se viu, essas pequenas coisas de lana-caprina tinham pouca importância. Desde que fosse a obra a pagar, pouco importava. Quem foi então o famigerado incógnito? Nada mais, nada menos do que o Silveira. Um indivíduo de Amarante, que fazia questão de se apresentar como conhecedor de sete idiomas, tradutor por vocação e licenciado em Botânica pela Universidade de Coimbra. Quem o recebeu na obra, (o Albano Silva) é capaz de não ter explorado convenientemente todos os recursos do Silveira, porque estou em crer que, ao menos em tuareg[1] ele era capaz de se safar. Neste caso, o único inconveniente era o limite norte do deserto ficar um bocado distante da obra, talvez a uns 400 quilómetros. Mas deste Silveira, que nesta fase já era sobejamente conhecido por "Sete-Línguas" – por motivos óbvios - temos mais matéria, noutros episódios que se irão seguir a breve trecho.
Mas não seria justo de todo que se mandasse o homem embora, de retorno à terra do Zé do Telhado, já que ele pareceu ter vontade de trabalhar, em agarrar-se a qualquer coisa que lhe garantisse o sustento. O facto de o entrevistador oficial das Construções Técnicas, em Lisboa, não ter estado à altura do entrevistado, não devia penalizar o pobre do Silveira, vulgo "Sete-Línguas" que, bem vistas as coisas, ainda não seria o maior culpado de todo o imbróglio criado à volta do caso. E foi assim, deste modo atribulado, que me saiu na rifa o Silveira. Como ele tinha uma grande vocação para armar mentiras, por uma questão de coerência, uniformização e afinidade de processos, pu-lo na obra, como armador de ferro.
Para que conste, no decorrer das admissões de artífices para a Cimenteira de Oujda, contámos com a entrada de alguns valedapintenses, cujo contributo foi reconhecido pelas chefias. Eram eles:
- Agostinho Duarte da Silva
- Albino Parente da Silva
- António Manuel Oliveira
- Augusto de Sousa
- Fernando Caria Parente
- João Duarte Galaxa
- Joaquim Parente da Silva
- José Calado Vieira
- José Manuel C. Neves
- José de Oliveira







[1] Povo nómada do Sahara

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