terça-feira, 14 de abril de 2015

Cap.º V - O lazer domingueiro dos Tugas

Em OUJDA, com álcool
Pois é! Muita gente não compreendeu, mas só quem passou por elas é que sabe quão difícil é suportar uma campanha em terras do Maghreb, mais propriamente no reino de Marrocos. Se compararmos essa saga, com a recente "Maratona das Areias", em que participou o nosso compatriota Carlos Sá, concluiremos que, uma e outra, não são assim tão diferentes. Se a segunda tem como cenário a areia, muita areia, as Obras da primeira também a tinha, pese embora em menor quantidade. No entanto, em ambas se estava exposto ao sol do deserto. Sim, a Obra da Cimenteira de Oujda era um autêntico deserto!
Fazendo uma espécie de triagem entre os trabalhadores que por lá pelejaram e a seita de malandrins que por lá "estagiou" à conta do orçamento, referindo-me aos primeiros, direi que, para atenuar a dureza do "hebdomadário", nada como variar. E mais que variar era uma vingança, em jeito de desforra, nos mais diversos domínios. Desde as valentes terrinas e travessas de comida que alguns javardões enfiavam no bucho, e as garrafas de tintol que sugavam no Refeitório da Obra, como se não houvesse amanhã, às "partidas" que pregavam aos colegas, tudo servia para amenizar os sacrifícios e atenuar as saudades da família. Aos fins de semana, era vê-los no Estaleiro a apanhar o autocarro das C.T. para, 40 kms depois, marcharem sobre Oujda, quando não para Saidia.
Oujda era uma cidade relativamente extensa, bem maior do que Coimbra, mas, apesar disso, rara era a artéria onde não se vislumbrasse um, dois, três, no máximo quatro tugas, a "farejar", por vielas e travessas, à procura de não sei quê. De Mesquitas, para rezar, não seria, por certo. Portanto nada de magotes, e cada um que se safasse conforme pudesse. A tática a adotar era a descrição, por via dos Gendarmes. Estes, como guardiães do Reino, tinham a espinhosa missão de zelar pelo bom comportamento da sociedade: marroquina ou estrangeira. Ora, como o currículo dos portugas não era lá muito abonatório, nada como mantê-los na mira, ali debaixo de olho. Só que portugueses são mesmo portugueses e, por tal motivo, alguém, um dia, pessoa sapiente, propalou ao Mundo que o lema fundamental do povo Tuga é mesmo o DESENRASCA. De modo a não defraudarem o epíteto, outrora atribuído, vai de partir para o desenrascanço.

Ao domingo, pela manhã, era vê-los na Medina a mercar peças de vestuário. Calças de ganga, blusões e casacos de cabedal (bom cabedal), sendo que algumas dessas peças eram trazidas para Portugal. Ora doadas a familiares, ora vendidas a bom preço, o certo é que alguns até fizeram boas negociatas. Quem viajasse de avião, tinha alguma dificuldade em "passar" a mercadoria, mas de carro passava com alguma facilidade. O pior era mesmo na entrada em Portugal.
Alguns, assim mais para o fino, paravam ali pelo Colombo. Era uma fina Pastelaria, no Boulevard Mohamed V, onde paravam umas frequentadoras, também elas a puxar para o fino, de rosto ao léu e olhos (bem) pintados. Nada de burqas, nigabs, jilabs, chadors ou hijabs. As outras, as "maltrajadas", que usavam e abusavam dessas vestimentas, percorriam Ceca e Meca (salvo sejam), que é como quem diz, Boulevard acima, Boulevard abaixo, umas voltas aos Correios, por vezes acompanhadas de um filhotito, mas lá sentarem-se à mesa de um Café ou numa esplanada, estava fora de hipótese. Era mesmo proibido. Não só a Polícia, mas também a Religião não o permitia. Em contrapartida, eles, os magrebinos andavam de mão dada, aos pares, em plena rua e, nos cumprimentos, espetavam com 3 beijos nas faces de um qualquer "mangas"
Havia uns Cafés, espécie de Snack-Bar, espalhados pelo centro da cidade, onde muitos tugas passavam algumas horas beberricando, para gaudio do taberneiro, mas sob os olhares de reprovação dos magrebinos que, álcool, nem vê-lo, quanto mais cheirá-lo. Só se fosse à socapa, correndo grandes riscos.
Um dia de domingo, a meio da manhã, dou por mim a encontrar-me com alguns figurões portugueses que, nesse domingo, tal como os demais, se encontravam a "estagiar" em Oujda. Daí até à entrada do grupo no "La Cigogne" foi um àpice. Depois de uns Vermutes para uns e cerveja para outros, foi o que deu origem à fotografia acima exposta. Alguém conhece alguém na foto? Alguns são mesmo de Vale da Pinta.

A propósito, uma vez, pelas 11h00 da matina, estava eu com mais dois tugas, numa mesa da Esplanada do "La Cigogne", também no Boulevard Mohamed V, quando passou um rapaz, enfermeiro marroquino, que trabalhava no Posto Médico da Obra. É claro que, à boa maneira portuguesa, convidámo-lo a sentar, mas ele não aceitou, argumentando: - "Se vocês quiserem ter o trabalho, e o incómodo, de mandar retirar da mesa esses copos de Vermute, então eu posso sentar-me e fazer-vos companhia, de contrário, nem pensar. Nenhum árabe se pode sentar aí com álcool sobre a mesa. Somente chá!"
Mas era assim que a malta - nós e eles - levava aquela vida.

Ah, também havia bola! O clube da cidade, o "Mouloudia de Oujda" participava no Campeonato da I Liga de Marrocos. Era aí, naquele Estádio, que, de 15 em 15 dias, certa malta portuguesa acorria para ver um desafio de futebol. Naquele domingo o visitante era o Raja Casablanca, por isso, devido à categoria do adversário, aquilo foi "casa cheia". De modo a manter a ordem e a disciplina, tanto nas Bilheteiras como nas Entradas, foram montadas guardas metálicas e separadores para ajudar no fluir da multidão. Que me lembre, havia umas quatro filas. Eu seguia, sozinho, numa delas, talvez na terceira, e na fila do lado reparei que seguiam quatro tugas. Compenetrados no seu papel, falando alto para dar nas vista, lá iam seguindo, em fila indiana, atrás de uma fila marroquina. A certa altura, com o aproximar dos portões, e com a ânsia e ganância de chegar primeiro (mesmo que já fosse o milésimo), o corredor começou a ficar mais comprimido. Para evitar atropelos ou até males maiores, os porteiros gritavam para os "prevaricadores", com os tugas à cabeça, assim, deste modo:
- "Ah, Mohamed, pass pas!"
Os homens da Obra, interpretando que o tipo do braçal vermelho estava a mandá-los avançar, não são de modas e vai disto! Força e mais força. Mas a fila estava embuchada e pouco ou nada progredia. E a cada impulso dos tugas, iam os porteiros ordenando, em altos berros, tentando travar a avalancha, pondo a mão no peito do da frente: -"Pass pas! Pass pas!"
O problema não era na minha fila, mas, assim que cheguei a par com o grupo dos quatro, disse-lhes: - "Eh, pá! Vocês estão a forçar a entrada para quê? 
Ao que um deles, o Orlando, encarregado, do Marco de Canaveses, respondeu:
- "A forçar a entrada? Então o gajo está a mandar passar!..." 
Por causa destas e de outras parecidas, é que um nosso operário, numa ida ao Posto Médico da Obra, se queixou que estava com uma "constipacion". Como, para o médico marroquino, a constipation era prisão de ventre, receitou-lhe uma purga tal, que pôs o fulano a defecar de dez em dez minutos, durante um dia inteiro. O desgraçado, por pouco não ficou estripado.
Essa mania de falar francês... é no que dá!

Nota: - Os marroquinos chamavam Mohamed a toda a gente, sempre que não sabiam o nome.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Capº III - Ida e Volta a Al-Hoceima.

A "bomba" do Silveira
Saga da viagem de sábado a Al Hoceima -
Nesta nova fase, já depois de o Silveira ter "despedido" o valedapintense Agostinho, como condutor do Opel Rekord 1900, substituindo-o pelo Santos, ou o Regina, como alguns lhe chamavam, era premente testar a sério a sua bomba. Para isso, nada melhor do que fazer uma viagem mais longa do que ir e vir de Oujda. Noventa quilómetros nem davam para aquecer o motor. Ir à zona balnear de Saidia, segundo o Santos, também não seria a viagem ideal. Pese embora já serem para aí uns cem quilómetros para cada lado, as estradas eram demasiado planas e horizontais para pôr a viatura à prova.
Pensando melhor, depois de um debate a dois, ir até Al Hoceima seria o ideal. O traçado rodoviário era muito variado: ora segmentos de reta, ora curvas e contra curvas; uns planos horizontais e outros inclinados, enfim, era esta variedade de condições, que iria garantir um perfeito teste à máquina do Sete Línguas. Eram duzentos e cinquenta quilómetros para cada lado, mas que se lixasse. Ainda por cima, a gasolina em Marrocos era ao preço da uva mijona, por que não avançar para aquela cidade do Mediterrâneo, em plena zona dos berberes[1]?
Este povo falava a sua própria língua, a berbere que, por estranho que pareça, era também falada pelos distantes tuaregues. Sendo minoritária, nunca se chegou a impor e até nunca foi tida como escrita. Aqui nesta zona do Rif, a língua castelhana era a mais utilizada.
O esquema traçado para a viagem visava um caminho menos acidentado para a ida e, no regresso, embora com algum sacrifício pela travessia das montanhas do Rif, fariam uma paragem na Barragem Mohamed V que, dizia quem conhecia, era um espanto. Como nunca antes tinham ido para aqueles lados, nunca se sabia o que se poderia encontrar; além do mais, o modo como o carro se comportaria, era uma incógnita. Mas eles iam partir às cedo, como combinado, porque o percurso, segundo os informaram, demoraria umas quatro horas para cada lado e eles queriam evitar viajar de noite. Assim, o Santos pegou na bomba e saiu do estaleiro às 06h00. Entrou na Nacional 6, virando à esquerda e seguiu para El Aioun, onde ia recolher o Sete Línguas.
Resumindo, em traços gerais, soubemos que, a partir de El Aioun, continuaram pela N6 e, 20 km mais à frente, deixaram esta via e entraram numa estrada secundária que os levaria até à povoação de Mechra Hommadi. Seguiram em frente, com passagem por Hassi-Berkane, onde entraram na N19. Passaram por Douiria, Mont Arruit, já na N2, – onde pararam para comer alguma coisa – seguiram por Driouch, Boufarkouche, Talamagait, Imzouren e chegada a Al Hoceima, por volta das 11h00.
Ali chegados, deixaram o carro e caminharam, a pé, pelas zonas mais antigas da cidade, a fim de apreciarem aquelas ruas estreitas e casas branquinhas que, dispostas em anfiteatro, transmitiam uma onda poética a quem teve a felicidade de as conhecer.
De tanto andar de carro e de tanto caminhar a pé, as dores nos pés e a fome começaram a tomar conta deles. Para remediar esta segunda pecha, era fácil, pois não faltava ali onde comer, mas remédio para a primeira já era mais difícil. Eles precisavam de descanso, descanso sentado e, se arranjassem por ali perto onde dar ao dente, aproveitavam a embalagem e sentavam-se um bocado, para aliviar o que estava dentro dos calcantes[2]. E foi numa churrasqueira que abancaram, para saborear o belo frango na brasa.
Terminado o repasto, acharam que faziam bem em dar uma voltita pela zona mais moderna da cidade, talvez para estabelecer uma comparação entre a nova e a velha, e assim foi. Ao virar de uma esquina, o Sete Línguas parou e deteve-se em frente a uma montra, de onde ressaltava um sapato que lhe estava mesmo a cair no goto. Mas, entretanto, através da montra, reparou que no interior da loja estavam duas meninas de bata azul, que, depreendeu, seriam empregadas. O Santos, que ia ligeiramente adiantado, virou-se para trás e gritou para o patrão[3]:
— Então, Silveira! Vamos embora, que se faz tarde!
— Ó Santos, tenho os sapatos todos descambados e gostava de comprar aqueles, os castanhos, mas tenho as meias rotas!...
O Santos, armado em macaco, sossegou o Silveira:
— Mas, ó Silveira, isso não constitui problema! Eu sei falar um bocado de espanhol e, enquanto você experimenta os sapatos, eu entretenho as gajas! Entre lá!
O nosso amigo Sete Línguas, cheio de boa fé e confiança no Santos, entrou. Depois de cumprimentar as meninas, apontou para aqueles sapatos que lhe tinham causado tão boa impressão. Dizendo que calçava o 42, pediu para experimentar uns. Uma delas abriu um gavetão e de lá tirou um par de sapatos, que pôs à disposição do Silveira. Este retardou a operação da experimentação, esperando que o Santos entabulasse conversa com as meninas, o que aconteceu. Sentindo o caminho livre, descalçou os velhos sapatos e, meio desconfiado, enfiou os novos nos pés. Estavam apertados. Nisto, diz o Santos:
— Então chefe! É hoje ou amanhã?
O homem, sentindo os pés apertados, ainda tentou que o amigo (?) voltasse a entreter as meninas, mas isso não foi possível, porque o Santos já tinha esgotado os seus argumentos em espanhol, e as meninas estavam ambas concentradas no apoio a dar ao cliente.
Finda a operação, enquanto o Silveira puxava pela carteira, uma das meninas pegou nos sapatos velhos e fez menção de os colocar no caixote do lixo. A um aceno de cabeça do Santos, a confirmar o gesto da menina, esta não foi de modas, e os descambados sapatos foram mesmo para reciclagem, coisa a que, na altura, o Silveira não se opôs.
Eram três da tarde, e não havendo mais nada que os retivesse por ali, foi tempo de pegar na bomba e zarpar de regresso a El Aioun.
Conforme planeado, o itinerário do regresso seria diferente do da ida, sendo que, desta vez, passariam pela Barragem Mohamed V. E lá foram eles estrada fora, pela N19, de modo a chegarem àquele complexo hídroelétrico ainda com a luz do dia. Em condições normais, sempre seriam umas três horas de caminho. Mas isso seria em condições normais, porque em situação anormal, ninguém pode ter a veleidade de o saber.
Após três horas de viagem, pela quilometragem feita eles sabiam que a Barragem já não estaria longe, mas o Belzebu do Rif[4], que estaria por perto, à espreita do exato momento para atacar, resolveu acabar com a boa disposição do duo, avariando-lhes a instalação elétrica da iluminação do carro.
O motorista de ocasião saiu do carro, abriu o capot, vasculhou visualmente aquela panóplia de cabos e fios entroncados uns nos outros e concluiu que o busilus devia estar na parte elétrica, na vertente da iluminação, já que o motor trabalhava. Mas o Santos a ver aqueles fios todos, era como um boi a olhar para um palácio. Coçou a cabeça, deu um pontapé num pneu e, com um desabafo próprio das gentes do Norte, gritou para o Sete Línguas:
— Ó Silveira! Estamos quilhados, carago! Esta merda não dá nada! E agora? Nem uma merda de um mapa para ver onde estamos!
O Silveira era o patrão, mas, numa situação daquelas, ele não mandava nada. Se ele era apenas especialista em Línguas e em Botânica – e agora, na obra, a atar ferro - que obrigação tinha ele de perceber de eletromecânica? O Santos é que tinha a responsabilidade moral e material de levar a bomba a bom porto. Não era só gozar a condução daquela bela máquina, passear, comer e beber à conta do orçamento do Silveira… o que era isso?
E com uma grande lata, pergunta ao outro, “E agora?”
            Mas o Silveira, com os olhos esbugalhados e uma lágrima ao canto de um deles, fruto da emoção do momento, também não foi mais expedito que o Santos, já que respondeu na mesma moeda, isto é, com um sonoro “E agora?” Mas essa era uma pergunta que o chauffeur já tinha feito. Numa situação embaraçosa como aquela, a prenunciar noite escura, abandonados pelos deuses numa curva da estrada num ermo em plenas faldas das montanhas do Rif, possivelmente infestadas por 40 ladrões da seita do Ali-Babá, o que se pedia e era premente, era lucidez, cabeça fria e umas pitadas de valentia. Mas, por enquanto, eram só lamentos e ais. Depois, sem solução à vista, sentaram-se nos bancos da viatura, esperando que alguma alma milagrosa, a viajar de carro, passasse por ali e lhes desse uma ajuda. Mas qual quê! Até agora – e já decorrera mais de meia hora – o que por ali tinha passado eram corvos e mochos que, com o seu sinistro piar, mais agudizavam o medo que ambos sentiam. Se ainda, ao menos, estivesse luar! Mas esse desiderato não lhes foi concedido, já que essas historietas de: “ Y la luna parece un turbante de plata perdido de Alá”, era só na canção de Los Tamara, que não passava de teoria barata para enganar os românticos. A não ser que essa mesma luna, naquela noite, só aparecesse a quem estivesse no deserto do Sahara. Ainda assim, não sendo crentes no Alcorão, decerto não esperariam uma bênção de Alá, só porque estavam em apuros.
            A noite avançava, e para quem fazia tanta questão de visitar a famosa Barragem Mohamed V, a visibilidade já era. O Silveira lamentava-se. Lamentava-se, não apenas pela sua bomba, mas porque os seu pés, envoltos numas coisas de cabedal, a que chamavam sapatos, mas que para ele eram duas prensas, já estavam a chegar ao limite do sofrimento.
Cansados, descoroçoados e quando preparavam a mente para dormitarem cada qual por seu banco, eis que aparece um raio de luz ao fundo da curva. Não havia dúvida: eram os faróis de um carro. O Santos, mais destemido que o Sete Línguas, deu um salto para o meio da via e com os antebraços na horizontal e as palmas das mãos abertas, viradas ao céu - como já vira os marroquinos fazerem na obra aquando das suas preces - fez frente à viatura que se aproximava. Quem conduzia o carro, sabia bem de quem se tratava. Não porque se detetasse, logo à primeira vista, que os sitiados eram portugueses; eles até podiam ser espanhóis ou italianos, mas, pela indumentária, árabes é que eles não seriam mesmo. E foi por isso que o enviado de Alá, resolveu parar, sem receio. Tivessem os portugueses a infeliz ideia de exibir, na tola e no corpo um turbante, uma gilaba ou um albernoz,  mesmo que fosse só como recordação, e nunca aquele condutor marroquino tinha parado a sua carrinha de caixa aberta naquele ermo.
            Mas agora, um novo problema surgia: é que o homem, a quem podemos atribuir o epíteto de socorrista, não pescava uma única palavra de francês, espanhol e, ainda menos, de português. Perante esta embaraçosa situação, o Santos que, pelos vistos, percebia alguma coisa de mímica, lá se fez entender ao socorrista. E gesto pra cá, gesto pra lá, ficaram a saber que a Barragem estava apenas a uns tês quilómetros dali, o que, sobremaneira, os animou. Foi então que o Santos tentou fazer entender ao marroquino que precisavam do seu auxílio no sentido de os rebocar - no sentido figurado, já se vê – indo à frente, a abrir caminho e, deste modo, já o Opel Rekord 1900, podia chegar, em segurança, às portas da Barragem. Mas o maometano, ou por não perceber a jogada, ou por ter mais que fazer, marimbou-se na rudimentar mímica do Santos e desapareceu naquela noite escura como breu.
            Com tudo isto, já se perdera quase uma hora e a situação pouco mais tinha evoluído. Ao menos, tinham ficado a saber que a Barragem estava ali relativamente perto. Perto para o Santos, que não para o Silveira, e já vão ver o porquê. É que o condutor tinha de conduzir e, para isso, ia dentro do carro, mas então quem é que orientava o rumo, em plenas estrada cheia de curvas, numa noite carregada de escuro? Como não havia por lá mais ninguém, era claro que o guia só podia ser o Sete Línguas! Este, a princípio, recusou tal ideia, alegando que, além de ser o patrão, também tinha os pés feitos num nó, tão doridos estavam. E argumentava:
            — Ó Santos, eu mal sinto os pés! Tenho a certeza de que o sangue já nem circula por aqui, e agora tenho que fazer de guia?
            — Ó Silveira, você vai à frente, de braços abertos, com dois cigarros acesos, um em cada mão e, assim, chegamos ao raio da Barragem, sãos e salvos. Porque se você continuar na sua, a teimar em não alinhar como guia, o que pode acontecer, é que eu, não conseguindo vislumbrar a berma da estrada, me despiste e vamos os dois bater com os cornos lá no fundo do precipício. E o carro, esse, fica no fundo do vale, feito em bosta. Escolha!
            O Silveira ainda aguentou uns quinhentos metros, a trote, mesmo parando e retomando a marcha várias vezes, mas depois, chegou o fim. O corpo humano não é de ferro. Há limites para tudo e também para os pés do patrão que, agora, numa situação de subalternidade, já não mandava nada, nem, tão pouco, nos pés.
            Os pés, como se sabia, estavam no fim, mas a cabeça, essa ainda funcionava. Ao ralenti, mas funcionava. Tanto assim era, que o dono dos pés, e dos sapatos novos, lembrou-se que tinha uma alternativa que, até então não lhe tinha ocorrido: era descalçar os malditos sapatos e trotar descalço. Que diabo, em piso asfaltado que mais queria ele? Descalçou-se e trotou. Os pés, agora livres de engulhos, já eram lubrificados pelo sangue que, antes encontrara o caminho obturado.
            Depois desta tortura, chegaram ao portão da Barragem. O Santos dirigiu-se ao guarda de serviço e este, simpático, já a fazer-se à gorjeta, chamou o eletricista de turno que, de pronto, e de modo fácil, resolveu aquele intrincado problema elétrico na instalação do Opel Rekord 1900, a que o Sete Línguas chamava a bomba.
            Dadas as gorjetas e feitos os agradecimentos, lá vieram aquelas duas almas meias depenadas e bastante constrangidas, estrada N19 fora, até El Aioun, onde o Santos deixou o patrão Silveira e seguiu até ao aldeamento do estaleiro. Eram para aí umas onze da noite.
            Mas durante a viagem, como se o sofrimento não bastasse, o Silveira ainda teve que ouvir um raspanete do Santos por causa do raio das línguas:
            Dizia o chauffeur:
            — Então você é que era o tal Tradutor, que vinha para Marrocos fazer de intérprete e eu é que tive de falar com as gajas? E com o gajo da carrinha? Se não fosse eu, com a minha mímica, ainda agora lá estávamos, à espera de não sei quê. O Silveira não gostou e ficou um bocado agastado com o inoportuno provocador.
            A bomba, essa ficava à guarda do chauffeur até ao dia seguinte, altura em que o dono iria buscá-la, para ser ele próprio a desfrutar daquela máquina. 
Depois da farra, já na Segunda-Feira, em plena obra, era ouvi-los, em separado, cada qual a fazer queixa do outro. É que o Silveira já estava a ficar conhecido pelo seu mau feitio!... Primeiro, era o valedapintense Agostinho, que não lhe servia para conduzir a bomba, agora era o vilacondense Santos que, tal como o outro, também não aprovava. Então, já escaldado, o dono do carro tomou a decisão de ele prórpio tirar a carta, já que, segundo a lei, mesmo em Marrocos, sem a permis de conduire, ninguém se encontrava habilitado a pegar naquela ou em qualquer outra bomba. Mas a obtenção desse documento, como se pode ver no capítulo seguinte, estava para breve.




[1] Povo do norte de Marrocos, com língua própria, não oficial
[2] Sapatos
[3] Era o patrão, porque hoje era ele que pagava tudo
[4] O Diabo mas montanhas

Cap.º IV - O "Sete Línguas tirou a carta"

Vendiam de tudo, menos "permis de conduire"
- Os ditos, mexericos e carta na mão -
O Sete Línguas, encontrava-se num grande dilema. Ele sabia que em Marrocos se vende de tudo: calças de ganga de boas marcas, a bons preços, casacos de cabedal genuíno ao preço da uva mijona, carros em todas as mãos... mas disso já o Silveira estava servido, do que ele estava a gora mesmo a precisasr era da carta de condução. Com ou sem razão, acabou de se incompatibilizar com o Santos, tal como acontecera com o Agostinho, o de Vale da Pinta, também não tinha entrado nas boas graças do Silveira. Tanto assim foi, que o capataz do ferro, esteve umas semanas de castigo, sem pôr o traseiro no assento do Opel Rekord 1900. Diziam as más-línguas, que assim e que assado, que as mulheres isto e que as mulheres aquilo, mas ali naquele meio de 99,8% de homens ou afins, nem todos procediam como total hombridade. Fosse por despeito, inveja ou malvadez, alguém soprou nas orelhas do Sete Línguas, alegando que aqueles a quem ele punha o carro nas mãos, não tardariam a espatifá-lo todo. E que, tanto o Agostinho como o Santos, não tinham unhas para tal volante, por isso, na opinião dos bufos, o melhor que o Silveira tinha a fazer era ser ele próprio a conduzir a viatura, porque, do mal, o menos. Para espicaçar ainda mais o pobre, ainda lhe aventaram com a hipótese de ter sido o próprio Santos a sabotar a iluminação do carro.
            O nabo do homem alinhou naquela tramóia e, no dia seguinte, disse, friamente, ao Santos que a partir daquela data, seria ele, Silveira, a conduzir a bomba.
Foi então que o Santos, furioso pela despromoção, lhe rogou meia dúzia de pragas que, caso caíssem em cima do homem, já há mais de trinta e cinco anos que o Sete Línguas tinha ido conduzir bombas para o Inferno.
Como disse, agora na vertente dono-condutor, foi o dono a trazer o carro desde Al Aioun até ao estaleiro da obra. Como ele gostava de desabafar comigo, veio ao escritório e resumiu a odisseia de sábado. Ora como eu não ria das façanhas que ele contava – pese embora o esforço que fazia - ele ia sempre mais além. Mas hoje, o Silveira, não estava muito feliz ,e não seria somente pelo facto da saga de sábado. E, a uma pergunta minha, respondeu:
— Sabe, sr. Caria Luís, eu estou um bocado pesaroso por causa do diabo do carro. Mesmo agora, que venho apenas de El Aioun, e não são mais de doze quilómetros, fiquei aflito com o aquecimento do motor.
Eu, como gostava de entrar com ele sem o mostrar, comentei:
— Ó Silveira, como a estrada é boa, só retas, já estou a ver que você veio por aí fora, na esgalha, a apertar com o carro! – ao que o Silveira respondeu:
— Na esgalha, eu? Ó sr. Caria, então eu vim sempre em segunda!...
E não foi fácil explicar ao Sete Línguas que, em termos de provocar aquecimento no motor, a segunda velocidade era mais forte do que uma quarta. Aqui, a ordem numérica era invertida.
Passadas duas semanas, já o Silveira tinha a “permis de conduire” na mão. Para o que desse e viesse.
Foi na companhia de mais três portugueses que o Silveira fez o exame[1] que o havia de habilitar a conduzir veículos automóveis. Na verdade, nem o nosso amigo, nem muitos outros patrícios fizeram qualquer exame, pelo menos o teórico, já que o prático era comprado na hora. O assistente social e diretor do refeitório do estaleiro, Andrade e Silva, tinha a espinhosa missão de levar os candidatos às provas, subornar os agentes, fazer as perguntas e, de modo dissimulado, responder pelos examinandos durante as provas. Parece que as estatísticas marroquinas subiram em flecha, depois destes "cérebros tugas" terem sido postos à prova. Como, de um modo geral, ninguém pescava nada de francês, era o sr. Andrade e Silva que, atuando como tradutor, perguntava em português e respondia em francês. As respostas estavam sempre certas. Tenho a certeza, que nunca antes ou depois da Cimenterie de Oujda, houve candidatos tão brilhantes no Ministério dos Transportes de Marrocos no distrito de Oujda.
Mesmo os fulanos que não tinham a quarta classe, ou eram de todo iletrados, passaram nas provas com distinção. Pudera!...




[1] O exame era uma farsa

quinta-feira, 26 de março de 2015

Cap.º I - Mão-de-Obra de seleção


 - Os excêntricos -

  Eles eram tantos, que nem sei por onde começar. Porém, nem todos aqueles que contribuíram para a lista dos motes, que serviram de base a certas cenas, foram dignos de figurar no top. Dentro de uma certa lógica, e por uma questão de espaço e racionalidade, só os casos mais emblemáticos serão referidos.
Devido ao facto de o nosso amigo Sete Línguas ter sido referenciado como o Pontífice dos excêntricos, será ele a abrir o desfile.

Cap.º I - O Sete-Línguas
Fazer obras em Oujda com marroquinos, era como fazer omeletes sem ovos em qualquer ponto do planeta.
Estes fulanos, além de guardar carneiros, rezar cinco vezes ao dia - virados a Meca - beber chá de menta e partir um vidro de um carro para roubar uma esferográfica Bic ou um maço Malboro, que, por descuido, tinha sido deixado à vista, nada mais sabiam fazer.
Então, se para grandes males, grandes remédios, foram as Construções Técnicas obrigadas a abrir mais inscrições na Sede e, também, através de anúncios na imprensa escrita. Se a obra era mesmo para fazer, com que gente é que nós contávamos para dar andamento ao processo, cumprindo os prazos contratuais? Tinha de ser com portugueses. Não possuo esses dados concretos, mas presumo que o rácio do 1:5 inicialmente previsto, era agora bem capaz de ter atingido o 3:5, se incluirmos a mão-de-obra não qualificada como são os serventes. No caso de limitarmos o rácio apenas aos artífices, ele não deve andar muito distante do 5:5 ou seja: para cada português, um marroquino. Ainda com outro senão: no mês do Ramadão, aquela gente não fazia nada. Eles, das 06h00 até às 19h00 não se alimentavam, só rezavam. Neste mês de penitência islâmica, o horário da obra era das 06h00 às 14h00, mas, mesmo assim, ainda era demasiado, porque não seria fácil trabalhar debaixo de um calor tórrido sem comer nem beber. Não quero com isto dizer, que estes muçulmanos, durante o período do Ramadão, tivessem passado do oitenta ao oito, porque, em termos de alimentação, quando muito, passaram do dezasseis para o oito. Se nos outros meses eles comiam uma fatia de chapata dura, acompanhada de um púcaro de chá de menta ou, em alternativa, meio pacote de leite, por vezes, azedo, não se pode dizer que o sacrifício tenha sido demasiado duro. Imaginemos um operário português habituado a encher o bandulho com uma valente pratada de batatas com bacalhau, meio pão caseiro e meia litrada de tintol (só?) a ter de jejuar desde a madrugada até ao pôr-do-sol. Era mais que certo que, ao segundo dia, já estava de baixa médica. Era tudo uma questão de hábito.
Mas era verdade que os fulanos, durante aquele período, não podiam nem com uma gata pelo rabo. Não quero com isto dizer, que nos restantes onze meses eles fossem de muita produtividade, mas sempre faziam mais alguma coisinha. No entanto, para tirar partido de alguma energia que qualquer deles ainda conservasse, melhor não havia do que dar-lhes uma empreitada. Pelo sistema de la tâche, eles pareciam ir rebuscar forças não sei aonde, mas sempre buliam alguma coisa. Muitos desses marroquinos, mesmo mal alimentados, eram bem melhores do que certas encomendas Tugas que por lá apareceram, enviados pela Sede. É verdade. De entre aquela gentalha portuga, anónima e golpista, que foi somente passear a Marrocos, comer e beber, à borla, sobressaiu um cromo que acabou por fazer história na obra e fora dela. Bem, mas este já vinha rotulado da Sede com o epíteto de Tradutor. Não sei bem quem terá sido o, também cromo, que o entrevistou, em que idioma o terá feito ou que prenda ofereceu o candidato ao entrevistador mas, pelo que se viu, essas pequenas coisas de lana-caprina tinham pouca importância. Desde que fosse a obra a pagar, pouco importava. Quem foi então o famigerado incógnito? Nada mais, nada menos do que o Silveira. Um indivíduo de Amarante, que fazia questão de se apresentar como conhecedor de sete idiomas, tradutor por vocação e licenciado em Botânica pela Universidade de Coimbra. Quem o recebeu na obra, (o Albano Silva) é capaz de não ter explorado convenientemente todos os recursos do Silveira, porque estou em crer que, ao menos em tuareg[1] ele era capaz de se safar. Neste caso, o único inconveniente era o limite norte do deserto ficar um bocado distante da obra, talvez a uns 400 quilómetros. Mas deste Silveira, que nesta fase já era sobejamente conhecido por "Sete-Línguas" – por motivos óbvios - temos mais matéria, noutros episódios que se irão seguir a breve trecho.
Mas não seria justo de todo que se mandasse o homem embora, de retorno à terra do Zé do Telhado, já que ele pareceu ter vontade de trabalhar, em agarrar-se a qualquer coisa que lhe garantisse o sustento. O facto de o entrevistador oficial das Construções Técnicas, em Lisboa, não ter estado à altura do entrevistado, não devia penalizar o pobre do Silveira, vulgo "Sete-Línguas" que, bem vistas as coisas, ainda não seria o maior culpado de todo o imbróglio criado à volta do caso. E foi assim, deste modo atribulado, que me saiu na rifa o Silveira. Como ele tinha uma grande vocação para armar mentiras, por uma questão de coerência, uniformização e afinidade de processos, pu-lo na obra, como armador de ferro.
Para que conste, no decorrer das admissões de artífices para a Cimenteira de Oujda, contámos com a entrada de alguns valedapintenses, cujo contributo foi reconhecido pelas chefias. Eram eles:
- Agostinho Duarte da Silva
- Albino Parente da Silva
- António Manuel Oliveira
- Augusto de Sousa
- Fernando Caria Parente
- João Duarte Galaxa
- Joaquim Parente da Silva
- José Calado Vieira
- José Manuel C. Neves
- José de Oliveira







[1] Povo nómada do Sahara

Cap.º II - A "bomba" do "Sete-Línguas"

a "BOMBA" 
Cap.º II - O Sete Línguas comprou uma “bomba”

O Silveira, vulgo Sete Línguas, andava doido para comprar um carro. Durante vários fins-de-semana palmilhou por El Aioun, Taza e Oujda, correu Ceca e Meca, mas, como era esquisito, não havia maneira de encontrar a viatura com que sonhava, havia um mês. 

Quando menos esperava, chegou-lhe aos ouvidos a notícia, que o nosso mecânico Rachid Driss sabia de um carro que estava à venda num stand de Oujda, que era uma autêntica bomba. O Sete Línguas correu à oficina, entabulou conversa com o Rachid e inteirou-se dos pormenores da viatura. O que ouviu da boca do outro encheu-o de entusiasmo. De tal modo, que pediu dispensa no serviço, arrastou consigo um chauffeur de ocasião, arranjou quem lhe desse boleia e depressa chegou ao stand. O que se passou em Oujda, desconheço, mas sei que o Sete Línguas apareceu na obra com um Opel Record 1900 azul-cinza, que era uma autêntica bomba, como ele tanto gostava de evidenciar.
Lembro-me que era fim de tarde, quando o Silveira irrompeu pelo meu escritório adentro e, com o ar mais feliz deste mundo, informou-me:
— Ó sr. Caria, quer ver a tal bomba de que lhe falei há um bocado?
— Mas que carro é? E onde é que ele está? – perguntei.
— Está atrás da carpintaria! – respondeu.
Era realmente um carro grande, robusto, tipo carro americano, mas estava estacionado junto de um monte de desperdício de madeiras. Por isso, disse assim ao Sete Línguas:
— Ó Silveira, você coloca o carro encostado à serradura e ao lixo? Olhe que os gajos da oficina podem deitar fogo à bomba! – alertei.
O tipo ficou à rasca e pediu ao valedapintense Agostinho da carpintaria para que lho desviasse daquele perigoso local. O que este fez.
Mas então, dei uma olhadela ao carro e, sem perguntar nada, fiquei a pensar que seria carro para ter de uns oito a dez anos.
Ele não tinha carta de condução, mas isso, para ele, não constituía problema, já que tratou de convencer o carpinteiro Agostinho, no sentido de lhe dar uma ajuda na experimentação da bomba. O trajeto por ele escolhido era ir a El Aioun, onde residia, e regressar à obra. Seria uma pequena viagem de vinte e quatro quilómetros, mas já daria para perceber se a tal bomba se portava bem e ficar a saber se tinha, ou não, feito um bom negócio.
No fim do dia de trabalho, montaram-se ambos no carro e arrancaram rumo àquela povoação. À cena de os ver entrar na viatura, ainda eu assisti, depois, nesse mesmo dia, já não soube de mais nada.
Na manhã do dia seguinte, entrou o Sete Línguas no meu escritório e desabafou assim:
— Ó sr. Caria Luís, estou desgraçado! Então não é que o sr. Agostinho ia dando cabo da minha máquina?
— Ó Silveira, não me diga tal! Mas conte lá, homem!
E o nosso amigo exemplificava, o melhor que podia, as peripécias da experimentação da sua bomba, na ida e vinda a El Aioun.
— Olhe senhor: ele, já ali na saída do estaleiro, enquanto andava à procura das mudanças, fazia-o com tal ímpeto que eu já estava a ver quando é que a alavanca saltava do sítio. Depois, na entrada para a Estrada Nacional, não conseguindo meter a primeira, andava, desandava e rodava com a alavanca como eu nunca vi.
Interrompi o seu discurso para abreviar a cena e perguntei:
— Ó Silveira, mas na estrada reta, sem inclinações e com pouco trânsito, sempre as coisas melhoraram, não?
— Não senhor! Não melhoraram nada! Ainda foi pior, porque ele, para me fazer ver como é que se conduzia, pôs-se a fazer experiências, de modo brusco, de como reduzir e aumentar a velocidade, que eu, embora me custasse bastante, fui obrigado a mandá-lo parar com aquela maneira pouco ortodoxa de conduzir, se não, era melhor que voltasse para trás.
— Ó Silveira, mas o Agostinho não deve ter gostado muito dessa sua atitude, pois não? Ele, ao fim e ao cabo, foi fazer-lhe um favor…
— Ele não gostou, mas teve que as ouvir. Era o que mais faltava: um carro em bom estado, que me disseram ter sido de um médico, andar nas mãos de gente desta. Eu, no fim, até lhe agradeci pelo facto de ter ido comigo, mas também lhe disse que nunca mais ele conduziria este carro.
Eu, em jeito de desafio, comentei:
— Você não sabe, mas eu digo-lhe: o Agostinho tem carro, e conduz há mais de dez anos. Opel é a marca da carrinha dele, portanto dá impressão que você é capaz de estar a exagerar um bocadinho.
— Ó sr. Caria, pode acreditar em mim, que sou uma pessoa séria. Palavra de honra que, de cada vez que ele mexia nas mudanças, saltava-me uma afronta no peito que eu mal podia respirar. O senhor Agostinho, transpirava e, ora deitava a língua de fora, ora mordia os lábios… e, ao mesmo tempo, emitia sons do género: brrrruuum, brrrruuum!... O senhor nem faz ideia.
Bem, perante isto, o Sete Línguas tinha de se virar para outro chauffeur. Um que mostrasse ser digno de lidar, de maneira mais suave, com aquela alavanca de mudanças.

Na verdade ele arranjou um outro fulano para lhe conduzir a viatura, mas parece-me que pior foi a emenda que o soneto. O escolhido para a função de andar a passear o Silveira pelos aglomerados populacionais e estradas de Marrocos, foi o capataz Joaquim Pereira dos Santos, mais conhecido pelo Regina. Este cromo - nado e criado em Guilhabreu, Vila do Conde - em termos de excentricidade, ainda superava o Sete Línguas. Além disso, era uma esponja muito razoável. Num país onde a venda livre e o consumo de bebidas alcoólicas estavam proibidos, ele era um autêntico outsider. Por mais de uma vez tive de o castigar, suspendendo-o do trabalho, por me aparecer bêbedo, a tresandar a álcool, logo pela manhã. Eram bebedeiras de bagaço - que ia de Portugal - e que, durante a noite, não tinha havido tempo para as curtir.

Mas esta saga do Silveira com a sua bela máquina (ele chamava-lhe bomba), não acaba por aqui, já que, doravante, com o seu novo motorista, um chauffeur da sua confiança, é que ele iria conhecer Marrocos, de ponta a ponta.