terça-feira, 14 de abril de 2015

Cap.º V - O lazer domingueiro dos Tugas

Em OUJDA, com álcool
Pois é! Muita gente não compreendeu, mas só quem passou por elas é que sabe quão difícil é suportar uma campanha em terras do Maghreb, mais propriamente no reino de Marrocos. Se compararmos essa saga, com a recente "Maratona das Areias", em que participou o nosso compatriota Carlos Sá, concluiremos que, uma e outra, não são assim tão diferentes. Se a segunda tem como cenário a areia, muita areia, as Obras da primeira também a tinha, pese embora em menor quantidade. No entanto, em ambas se estava exposto ao sol do deserto. Sim, a Obra da Cimenteira de Oujda era um autêntico deserto!
Fazendo uma espécie de triagem entre os trabalhadores que por lá pelejaram e a seita de malandrins que por lá "estagiou" à conta do orçamento, referindo-me aos primeiros, direi que, para atenuar a dureza do "hebdomadário", nada como variar. E mais que variar era uma vingança, em jeito de desforra, nos mais diversos domínios. Desde as valentes terrinas e travessas de comida que alguns javardões enfiavam no bucho, e as garrafas de tintol que sugavam no Refeitório da Obra, como se não houvesse amanhã, às "partidas" que pregavam aos colegas, tudo servia para amenizar os sacrifícios e atenuar as saudades da família. Aos fins de semana, era vê-los no Estaleiro a apanhar o autocarro das C.T. para, 40 kms depois, marcharem sobre Oujda, quando não para Saidia.
Oujda era uma cidade relativamente extensa, bem maior do que Coimbra, mas, apesar disso, rara era a artéria onde não se vislumbrasse um, dois, três, no máximo quatro tugas, a "farejar", por vielas e travessas, à procura de não sei quê. De Mesquitas, para rezar, não seria, por certo. Portanto nada de magotes, e cada um que se safasse conforme pudesse. A tática a adotar era a descrição, por via dos Gendarmes. Estes, como guardiães do Reino, tinham a espinhosa missão de zelar pelo bom comportamento da sociedade: marroquina ou estrangeira. Ora, como o currículo dos portugas não era lá muito abonatório, nada como mantê-los na mira, ali debaixo de olho. Só que portugueses são mesmo portugueses e, por tal motivo, alguém, um dia, pessoa sapiente, propalou ao Mundo que o lema fundamental do povo Tuga é mesmo o DESENRASCA. De modo a não defraudarem o epíteto, outrora atribuído, vai de partir para o desenrascanço.

Ao domingo, pela manhã, era vê-los na Medina a mercar peças de vestuário. Calças de ganga, blusões e casacos de cabedal (bom cabedal), sendo que algumas dessas peças eram trazidas para Portugal. Ora doadas a familiares, ora vendidas a bom preço, o certo é que alguns até fizeram boas negociatas. Quem viajasse de avião, tinha alguma dificuldade em "passar" a mercadoria, mas de carro passava com alguma facilidade. O pior era mesmo na entrada em Portugal.
Alguns, assim mais para o fino, paravam ali pelo Colombo. Era uma fina Pastelaria, no Boulevard Mohamed V, onde paravam umas frequentadoras, também elas a puxar para o fino, de rosto ao léu e olhos (bem) pintados. Nada de burqas, nigabs, jilabs, chadors ou hijabs. As outras, as "maltrajadas", que usavam e abusavam dessas vestimentas, percorriam Ceca e Meca (salvo sejam), que é como quem diz, Boulevard acima, Boulevard abaixo, umas voltas aos Correios, por vezes acompanhadas de um filhotito, mas lá sentarem-se à mesa de um Café ou numa esplanada, estava fora de hipótese. Era mesmo proibido. Não só a Polícia, mas também a Religião não o permitia. Em contrapartida, eles, os magrebinos andavam de mão dada, aos pares, em plena rua e, nos cumprimentos, espetavam com 3 beijos nas faces de um qualquer "mangas"
Havia uns Cafés, espécie de Snack-Bar, espalhados pelo centro da cidade, onde muitos tugas passavam algumas horas beberricando, para gaudio do taberneiro, mas sob os olhares de reprovação dos magrebinos que, álcool, nem vê-lo, quanto mais cheirá-lo. Só se fosse à socapa, correndo grandes riscos.
Um dia de domingo, a meio da manhã, dou por mim a encontrar-me com alguns figurões portugueses que, nesse domingo, tal como os demais, se encontravam a "estagiar" em Oujda. Daí até à entrada do grupo no "La Cigogne" foi um àpice. Depois de uns Vermutes para uns e cerveja para outros, foi o que deu origem à fotografia acima exposta. Alguém conhece alguém na foto? Alguns são mesmo de Vale da Pinta.

A propósito, uma vez, pelas 11h00 da matina, estava eu com mais dois tugas, numa mesa da Esplanada do "La Cigogne", também no Boulevard Mohamed V, quando passou um rapaz, enfermeiro marroquino, que trabalhava no Posto Médico da Obra. É claro que, à boa maneira portuguesa, convidámo-lo a sentar, mas ele não aceitou, argumentando: - "Se vocês quiserem ter o trabalho, e o incómodo, de mandar retirar da mesa esses copos de Vermute, então eu posso sentar-me e fazer-vos companhia, de contrário, nem pensar. Nenhum árabe se pode sentar aí com álcool sobre a mesa. Somente chá!"
Mas era assim que a malta - nós e eles - levava aquela vida.

Ah, também havia bola! O clube da cidade, o "Mouloudia de Oujda" participava no Campeonato da I Liga de Marrocos. Era aí, naquele Estádio, que, de 15 em 15 dias, certa malta portuguesa acorria para ver um desafio de futebol. Naquele domingo o visitante era o Raja Casablanca, por isso, devido à categoria do adversário, aquilo foi "casa cheia". De modo a manter a ordem e a disciplina, tanto nas Bilheteiras como nas Entradas, foram montadas guardas metálicas e separadores para ajudar no fluir da multidão. Que me lembre, havia umas quatro filas. Eu seguia, sozinho, numa delas, talvez na terceira, e na fila do lado reparei que seguiam quatro tugas. Compenetrados no seu papel, falando alto para dar nas vista, lá iam seguindo, em fila indiana, atrás de uma fila marroquina. A certa altura, com o aproximar dos portões, e com a ânsia e ganância de chegar primeiro (mesmo que já fosse o milésimo), o corredor começou a ficar mais comprimido. Para evitar atropelos ou até males maiores, os porteiros gritavam para os "prevaricadores", com os tugas à cabeça, assim, deste modo:
- "Ah, Mohamed, pass pas!"
Os homens da Obra, interpretando que o tipo do braçal vermelho estava a mandá-los avançar, não são de modas e vai disto! Força e mais força. Mas a fila estava embuchada e pouco ou nada progredia. E a cada impulso dos tugas, iam os porteiros ordenando, em altos berros, tentando travar a avalancha, pondo a mão no peito do da frente: -"Pass pas! Pass pas!"
O problema não era na minha fila, mas, assim que cheguei a par com o grupo dos quatro, disse-lhes: - "Eh, pá! Vocês estão a forçar a entrada para quê? 
Ao que um deles, o Orlando, encarregado, do Marco de Canaveses, respondeu:
- "A forçar a entrada? Então o gajo está a mandar passar!..." 
Por causa destas e de outras parecidas, é que um nosso operário, numa ida ao Posto Médico da Obra, se queixou que estava com uma "constipacion". Como, para o médico marroquino, a constipation era prisão de ventre, receitou-lhe uma purga tal, que pôs o fulano a defecar de dez em dez minutos, durante um dia inteiro. O desgraçado, por pouco não ficou estripado.
Essa mania de falar francês... é no que dá!

Nota: - Os marroquinos chamavam Mohamed a toda a gente, sempre que não sabiam o nome.